Brumadinho,  se rompeu. Um mar de lama destruiu casas e vidas. Havia empregados da Vale no local atingido pelo rompimento. Ao menos seis prefeituras das cidades vizinhas emitiram alertas para que população se mantivesse longe do leito do Rio Paraopeba, pois o nível do mesmo  poderia subir em volumes incontroláveis.

A tragédia divide opiniões de ambientalistas, engenheiros e outros especialistas. O Portal BemMinas, procurou o engenheiro Mario Oscar, diretor da Geoid Mapeamento Aéreo, uma empresa especialista em mapeamento e cálculo de volumes para controle, para opinar sobre o assunto.

O engenheiro Mario Oscar participou de forma voluntária do mapeamento da tragédia ocorrida em Mariana, quando ocorreu o rompimento da barragem de Fundão. Na ocasião, toda região atingida pela lama de rejeito de minérios foi sobrevoada pela GEOID para se tentar obter o “marco zero” do acidente e ser possível detectar todas as obras necessárias para recuperação da área. Os dados obtidos peal GEOID foram repassados para todas as autoridades envolvidas na investigação do ocorrido e para outras, aplicadas na recuperação das áreas afetadas de Mariana.

De acordo com Mario Oscar, na época em que foi realizado o mapeamento de todo local, foram informados problemas existentes nas mais de 700 barragens em Minas Gerais. Na opinião do engenheiro, o trabalho das empresas mineradoras atuantes no Estado, com poucas exceções,  é extremamente sério, e as atividades dessas empresas são acompanhadas e fiscalizadas pelos órgãos responsáveis.

Ainda, segundo ele, o que aconteceu em Mariana é passível de acontecer em qualquer lugar no mundo. As barragens de Mariana e a de Brumadinho são extremamente distintas e apesar de envolverem a mesma empresa, os acidentes não têm ligação. Mario descarta negligência e acredita, na sua opinião, que o acidente não poderia ser previsto.

Segue a entrevista:

O episódio de Mariana, que envolveu a Samarco, uma empresa na qual a Vale também é sócia, ficou marcado como a maior tragédia do sistema ecológico brasileiro e um dos maiores do mundo. Parece que nada se aprendeu com isso?

Como acontece na aeronáutica, quando se fala em acidente aéreo, aprende-se com o erro dos outros e todas as tragédias que acontecem viram aula. Estuda-se a fundo o porquê aconteceu. Se o erro é mecânico ou humano. Esses assuntos são extremamente estudados para que não ocorra de novo.

Quando ocorre um desastre como esse, onde vidas são levadas, causam uma comoção social e a tendência é que se culpe alguém. Mas nessa situação é muito difícil culpar alguém. Eu costumo dizer que acidentes acontecem, jamais poderia levar isso para o lado da culpa.

Quem fiscaliza e controla as estruturas de barragens das mineradoras brasileiras?

A Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) e as demais instituições que compõem o Sistema Estadual de Meio Ambiente – Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Instituto Estadual de Florestas e Instituto Mineiro de Gestão das Águas fiscalizam as estruturas e operação das barragens.

O Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), o Ministério Público Estadual (MPE) e os Conselhos Regionais de Engenharia, Arquitetura e Agronomia de Minas Gerais também participam da Operação Barragens.

Do seu conhecimento, há outras barragens em Minas que são igualmente ameaças à população e ao meio ambiente? Quais são?

As barragens das Mineradoras são as maiores controladas das mais de 700 existentes em Minas Gerais. Inúmeras barragens que já foram desativadas, que correm o risco sim, de ocorrer desastres e que ninguém fala nada. E atualmente não se tem nem a quem procurar, posso dizer que a barragem de um garimpo é mais perigoso que uma barragem de uma mineradora multinacional. São barragens antigas que possuem materiais mais perigosos e danosos ao meio ambiente.

O senhor acha possível que a mineradora Vale não soubesse desse risco, isso é, o desse trágico rompimento?

Posso dizer com a absoluta certeza, apesar de não conhecer nenhum técnico que tenha trabalhado nessa barragem específica, que não houve negligência.

Os órgãos de fiscalização do Estado têm condições técnicas para prevenir esses riscos, suspendendo a operação dessas barragens?

Não só existem como o fazem; assim funciona. Se houver uma denúncia no Ministério Público, por exemplo, tudo é verificado e pode ser interditada a barragem..

O uso de barragens na atividade de mineração pode ser evitado, com opção por outras tecnologias?

Pode. Procura-se ser usado no mundo inteiro. As pesquisas minerais demoram-se anos. Pesquisas geológicas, de estabilidade e afins, é avaliado a melhor solução técnica. A barragem pode ser seca, a maioria das mineradoras tem migrando para o uso dessa tecnologia.

Em países desenvolvidos as barragens são igualmente usadas como suporte à atividade de mineração?

Sim, são exatamente iguais. As melhores empresas brasileiras de projetos, construção e fiscalização de projetos de barragens, coincidentemente estão em Belo Horizonte. São empresas que são sempre consultadas para o mundo inteiro. Minas, pela sua tradição de Estado minerador, tem excelentes técnicos nessa área.

Mario Oscar – Diretor Geoid Mapeamento Aéreo

A GEOID pretende realizar o mapeamento da tragédia de Brumadinho ainda este final de semana, para novamente ajudar na investigação. Até o fechamento desta matéria, Mario Oscar aguardava autorização para sobrevoar o local, pois o espaço aéreo se encontra fechado para o resgate das vítimas.

Fonte: Bem Minas